Dentre as criaturas mais letais da cultura pop, os xenomorfos da série Alien sempre me despertaram grande interesse. Alien: O Oitavo Passageiro foi possivelmente o primeiro filme de terror (apesar de ser suspense) que vi na vida e ele me assustou tanto na época, que eu simplesmente nunca mais tive medo de nenhum filme de terror desde então. E a continuação, Aliens: O Resgate, é até hoje um dos filmes de ação que considero mais bem-feitos em termos de estrutura de narrativa, dinâmica do avanço da história e escalonamento do perigo. As outras sequências e cross-overs foram uma queda grande na qualidade da franquia, mas mesmo o pior filme de xenomorfos – Alien: A Ressurreição, eu estou olhando para você – tem uma premissa bem interessante e que pode ser muito bem aproveitada numa aventura.

Imagine a seguinte estrutura geral: você começa a aventura entregando personagens prontos para seus jogadores. Personagens ainda mais fracos que os iniciais seguindo as regras de criação do livro básico. Ou, se preferir, todos podem ser exatamente no nível de poder de um personagem inicial.

Eles estão acompanhados de um NPC, que em algum momento, logo no início da sessão, desaparece sem deixar vestígios. Ele poderá ser encontrado após um encontro ou dois, de preferência só no dia seguinte. Tal NPC estará bastante marcado na cabeça, especialmente nas laterais, e com marcas de sufocamento no pescoço. Os primeiros indícios de um encontro fatal com um facehugger. Ele pode, inclusive, trazer consigo ou ter por perto o cadáver da criatura que implantou o embrião alienígena nele, se você achar que seus jogadores vão se manter no clima do jogo após a descoberta.

Mais algumas cenas após o reencontro, o alienígena surgirá, matando o NPC no processo. Isso pode acontecer durante um momento de descanso, ou até mesmo no meio de um encontro de combate – o que dará uma ótima oportunidade para o alienígena recém-nascido fugir para longe e poder crescer até a fase adulta. Escolha o momento que achar que vai gerar a cena mais dramática para o grupo todo. Se acha que eles vão passar medo, escolha a cena de descanso. Se acha que eles vão querer perseguir e matar o alienígena, talvez seja melhor o momento em que estarão ocupados com outros perigos.

Alternativamente, a morte do NPC e surgimento do alienígena pode se dar fora de cena, enquanto os personagens dormem ou fazem qualquer outra coisa. Eles simplesmente encontram o NPC morto e precisam descobrir o que aconteceu. Obviamente, por Aliens ser uma franquia conhecida, os jogadores terão uma ideia muito boa do que está acontecendo – se já não sabiam antes. O principal aqui não é você enganar seus jogadores, mas sim manter um clima que incentive que eles participem do drama e tratem seus personagens como pessoas que não conhecem a criatura.

Daqui pra frente, o jogo vira uma brincadeira de gato e rato, no qual os personagens precisam seguir em frente, seja descobrindo o que está acontecendo ou simplesmente caçando a criatura, enquanto o alienígena vai tentar pegar os personagens desprevenidos em momentos de descanso, quando eles estiverem separados do resto do grupo. E cabe a você, mestre, gerar situações nas quais eles precisem se separar – seja por estarem se esgueirando por lugares apertados, onde terão que passar um por vez, seja por caírem em armadilhas como fossos com água ou portas que se fecham. É com essas coisas que você vai gerar o medo nos jogadores: não por não saberem o que vai acontecer, mas por terem plena noção de estarem vulneráveis.

Lembre-se disso: Um alienígena adulto sozinho é capaz de matar um grupo iniciante, ou ao menos matar muitos membros do grupo antes de morrer. Mas a graça aqui está em ir abatendo os personagens um por um em momentos separados.

Aliens, o Resgate

Quando restar apenas um personagem jogador vivo ou tiverem matado o alienígena que os caçava, é o momento de começar a segunda parte do jogo. Você pode dar a opção de continuarem com os personagens que sobreviveram ou fazer personagens novos, desta vez com um nível de poder apropriado para enfrentarem um ou mais alienígenas de uma vez.

Eles serão os heróis que foram chamados para lidar com a ameaça dos alienígenas. Talvez eles tenham infestado uma vila isolada ou um prédio, como um armazém, mina de carvão ou até uma dungeon antiga. A aventura será limpar o lugar da presença alienígena e resgatar eventuais sobreviventes. Aqui o jogo perde um pouco do elemento de horror/suspense da primeira parte, mas ganha novas implicações. O medo não é de ser vitimado, apenas. Mas sim de imaginar o que pode acontecer se eles falharem. Essa ameaça pode se espalhar e ser o fim do mundo!

Epílogo

Enfim. Essa é a minha sugestão de como usar os xenomorfos da franquia Aliens em seu jogo de RPG. Mas claro, você não precisa fazer como estou sugerindo. Há uma riqueza enorme de tramas e formas de usar o material que apresentarei para vocês nos próximos dias. Inclusive, os quadrinhos de cross-over de Aliens – como o Aliens vs Batman e Aliens vs Super-Homem, além dos filmes da série AVP: Aliens vs Predador – oferecem ideias muito boas de como usar os xenomorfos em cenários que não são de terror e com personagens que não são apenas vítimas indefesas.

Além disso, é sempre bom lembrar que uma fonte riquíssima de ideias e ferramentas para usar as criaturas da franquia Aliens em seus jogos é o próprio Alien – O Jogo de RPG, produzido pela Free League e lançado aqui no Brasil pela Editora New Order. Se puder, dá um confere lá, que com certeza vai valer a pena.

Quinta eu devo postar o artigo com Aliens para Dungeons & Dragons 5ª Edição. Na terça da semana que vem a versão para Tormenta20 e na sexta seguinte a adaptação para Savage Worlds (quem sabe ambientado em Deadlands)