Caso Zak S: um abusador banido

Aviso: tema pesado e perturbador, não apenas no texto, como nos links apresentados.

Há cerca de duas semanas a atriz e modelo Mandy Morbid escreveu um relato no Facebook denunciando os 11 anos de abuso que sofreu nas mãos do autor, consultor creditado no Livro do Jogador do Dungeons & Dragons 5ª Edição, ator pornô e personalidade da internet Zak S (também conhecido como Zak Smith ou Zak Sabbath), quem era seu parceiro ao longo deste período. Pouco após seu relato, outras mulheres também vieram a engrossar o coro com seus testemunhos de maus tratos e abuso direto sofrido nas mãos do autor. Mais que isso: agressões e crimes do passado de Zak S foram trazidos de volta à tona, inclusive para lembrar de pessoas do meio do RPG que passaram a mão na cabeça do autor em episódios anteriores. Toda essa situação tornou impossível defendê-lo.

O RPG Notícias fez um resumo muito bom da situação toda, caso queira maiores informações de como Zak S construiu uma carreira no meio mentindo, forjando cartas de defesa, postando online como se fosse outras pessoas, maquiando números e convencendo pessoas a defenderem sua personalidade das denúncias de abuso.

Mandy Morbid, uma das vítimas de Zak S.

O Banimento

Finalmente, após todo o barulho levantado a partir da denúncia de Mandy Morbid, as empresas e mídia especializada começaram a se posicionar.

  • Kenneth Hite, o grande nome por trás da quinta edição do Vampiro: A Máscara e também um dos consultores creditados nos livros básicos do D&D 5ª Edição, bem como um grande colaborador do projeto Demon City – projeto que também conta com Zak S – postou no Facebook desculpando-se por toda a dor que suas ações ou omissões possam ter causado e anunciou que todo o faturamento que receber do Demon City será inteiramente revertido para a organização Connections fos Abused Women and Their Children, uma caridade de Chicago especializada no acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos.
    Ele promete nunca mais trabalhar com Zak S ou colaborar com projetos que o envolvam no futuro.
  • Peter Adkinson, um dos donos da GenCon – a mais famosa convenção de RPG do mundo – baniu publicamente a presença de Zak S do evento. Peter deixou bem claro que sua convenção não é lugar para assediadores, predadores ou outros tipos de abusadores.
  • Steve Wieck, presidente da OneBookShelf, o principal mercado virtual para a venda de PDFs de RPG do mundo e plataforma que abriga a DrveThruRPG e a DMsGuild.com (a loja virtual oficial de material antigo e de fãs para D&D), soltou uma postagem oficial condenando o comportamento de Zak S e afirmando que dos títulos disponíveis em suas plataformas, nenhum retorna faturamento diretamente para o abusador, mesmo que ele seja creditado em alguns deles. Haja vista que há outros profissionais creditados nestes produtos, a DTRPG não vai retirá-los do catálogo – deixando a decisão de retirar os produtos do catálogo à cargo das próprias editoras que contrataram Zak. Contudo, a receita vinda dos produtos nos quais Zak S é creditado será encaminhada diretamente para a RAINN, uma organização de caridade para pessoas vítimas de violência sexual.
    Mais que isso, a plataforma deixou claro que não trabalhará mais com este indivíduo e que empresas que por acaso tenham projetos em produção e que contem com ele nos créditos devem repensar sua relação com o autor e entrar em contato com a plataforma para negociar a adição do produto no catálogo. Bem como, empresas que planejam começar algum projeto com ele deveriam evitar de chamá-lo. Porque produtos com o nome Zak S nos créditos serão sumariamente recusados daqui pra frente.

A posição da Wizards of the Coast

Nos últimos anos, a equipe do Dungeons & Dragons tem trabalhado para associar o D&D a uma escolha de diversão inclusiva, abrindo espaços para minorias de maneira bastante progressista. Mas, a resposta inicial vinda da equipe, publicada pelo Mike Mearls – Diretor criativo do D&D – no Twitter foi bastante decepcionante:

Declaração do Mike Mearls, designer do D&D, a respeito de Zak S em 2018

Tradução Livre: “Eu recebi uma porção de perguntas sobre a relação do D&D com um certo playtester e queria deixar a nossa posição clara para os fãs.

Zak Smith foi um playtester do período inicial da quinta edição do D&D até 2014. Nós não lidamos com ele desde de as notícias de sua conduta online com outros criadores de conteúdo para RPG de mesa. Nós estamos desconsolados com as alegações recentes e oferecemos o nosso apoio para qualquer um da comunidade do D&D que se posicione contra abusos ao vivo ou online. Nós promovemos um ambiente a salvo e acolhedor para todos os nossos jogadores e trabalhamos com nossos parceiros para que façam o mesmo.”

Esse posicionamento do Mearls foi recebido por um grande número de jogadores de D&D do Twitter como uma tentativa de desconversar e fingir não ter relações com Zak S. só agora, depois dele ter caído em desgraça. Em especial depois de terem levantado indícios dele já ter acobertado o abusador lá atrás em 2014:

Suposto screenshot do Mearls defendendo Zak S. de alegações de abuso em 2014.

Tradução Livre: “Sem problemas. Eu andei investigando e tudo o que menciona se encaixa no que eu li. Basicamente, eu continuo recebendo que “Zak odeia gays e mulheres” e quando eu peço provas, as pessoas subitamente calam a boca.

Eis o que eu acho que aconteceu: Gente como XXXX Hill ou Sarah Darkmagic ficam muito passionais com essas coisas. Algumas pessoas online sabem que podem que podem manipular gente assim para formarem um pelotão de linchamento, e é o que elas fazem. Eu vi gente citar a postagem do blog que você linkou e quando eu as pressionei para realmente ler o post, estas pessoas ficaram ‘Ah, bem, me disseram que ele havia falado algo realmente ruim, mas parece que não.’

Foi uma experiência reveladora para algumas pessoas.”

Felizmente, a Wizards of the Coast posteriormente soltou a seguinte declaração:

A todos os fãs de D&D,

Nós passamos a semana passada ouvindo e aprendendo com a comunidade do D&D.

Zak Smith, como tantos outros, foi chamado pela Wizards para prover um retorno a respeito do D&D Next, o programa de playtest que evoluiu para tornar-se o D&D quinta edição. Nós não o contratamos mais desde então, e nos arrependemos de termos contratado ele em 2014. Por conta disso, estamos removendo os créditos ao Zak das impressões futuras e das versões digitais do Livro do Jogador.

Nós aplaudimos como a comunidade do D&D tem se apoiado e totalmente apoiamos os planos de levantar dinheiro para doar à RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network) com as vendas do pacote da Dungeon Masters Guild. O pacote está disponível agora e nós vamos ampliá-lo e expandí-lo.

Nós estamos gratos por fazer parte desta comunidade maravilhosa, e queremos te agradecer por sua paixão. Nós nos mantemos comprometidos em trabalhar e aprender com vocês, membros da comunidade do D&D. Vocês podem sempre compartilhar seus comentários e opiniões conosco através de nossas plataformas nas mídias sociais e estamos preparando um endereço de e-mail próprio para receber mais diretamente as suas críticas.

Sinceramente,
A Equipe D&D

Caso queira saber mais sobre o caso, eu recomendo fortemente ler o post do RPG Notícias a respeito.

Sábios no Twitter | Ferramentas de ladrão e proficiência

Algumas perguntas e respostas no Twitter com os designers do D&D a respeito do uso de ferramentas de ladrão e a necessidade de ter proficiência com elas.

Poderiam me esclarecer a respeito das Ferramentas de Ladrão e abrir fechaduras? É preciso ter as ferramentas? Você precisa ter proficiência?

Qualquer um pode usar as ferramentas, o bônus de proficiência é adicionado caso seja proficiente. Sem ferramentas, o mestre pode dizer que você não pode fazer o teste ou que tem uma desvantagem nele.

— Mike Mearls (@mikemearls), 14 de Novembro de 2014

A seção “portas trancadas” da página 103 do Guia do Mestre afirma que você deve ter as ferramentas E proficiência para abrir uma fechadura. Isso é um erro de digitação ou o específico se sobrepõe ao contexto geral?

O específico ganha do geral.

— Jeremy Crawford (@JeremyECrawford), 28 de Novembro de 2017

Então, qualquer um pode usar ferramentas de ladrão, mas você precisa ser proficiente para poder abrir uma fechadura? E um baú trancado? Desarmar armadilhas?

Qualquer um pode tentar. Proficiência só significa um bônus a ser adicionado, a menos que a fechadura/armadilha/mestre expressamente diga o contrário.

— Mike Mearls (@mikemearls), 29 de Novembro de 2017

Fonte: SageAdvice.eu | Could I get some clarity on Thieves Tools and lockpicking. Do you need the tools? Do you need proficiency?

Mike Mearls: Como a 4ª edição deveria ter sido

Mike Mearls, principal designer do Dungeons & Dragons 5ª Edição, e também o nome forte por trás da edição anterior, respondeu no Twitter como ele gostaria que o D&D 4ª edição tivesse saído, lá nos idos de 2008:

Pergunta: Agora que já temos alguns anos de perspectiva, há algo na 4e que você acha que foi melhor do que a 5e, do ponto de vista do design?
Tipo, algo que foi removido ou modificado e que você considere que deveria ter sido um aspecto básico daquele sistema?

— Difícil de responder, porque a 4e que eu queria criar e a 4e que foi publicada são fundamentalmente diferentes. Eu queria que as classes ganhassem os poderes em intervalos diferentes, e mais laços temáticos entre os tipos de poderes.

Exemplo: com o mago, suas magias diárias dariam acesso a palavras de poder, as palavras que fazem parte do componente verbal para conjurar uma magia, como poderes por encontro. A ideia era que você poderia conjurar partes de sua magia diária como um poder por encontro.

A 4e que terminamos lançando perdeu muito dos conceitos de poderes temáticos que eu acredito que teriam tornado o núcleo do sistema bem mais robusto.

Dito isto: desafios de perícias eram um conceito interessante, mas nós não tivemos tempo o suficiente para testar. E tínhamos esse costume ruim de postar erratas sem maiores explicações. Eu andei brincando com uma nova forma de lidar com desafios de perícia na minha campanha no Vale Nentir e tem funcionado muito bem até agora.

Eu poderia escrever um livro inteiro sobre a 4ª edição ter saído do jeito que saiu. Ela é um ótimo exemplo de um conceito muito bom sendo vítima de absolutamente todas as armadilhas nas quais você pode cair durante o processo de desenvolvimento de um jogo.

Mas, voltando desse desvio no assunto: eu fico um pouco chateado comigo mesmo por não ter roubado mais dos poderes à vontade da 4e, para usar na 5e. Olhar Pungente é um brinquedo tão divertido, que não faço ideia do motivo de não termos pego ele e outros tantos para trazer para a 5e.

Cada fonte de poder possuir uma classe de cada papel era um conceito básico, mas relativamente frustrante. A 4e tinha uma tendência a criar diagramas e tentar preenchê-los sem julgar se seria uma boa ideia. Especialmente num sistema onde cada classe ocupava um espaço gigante. Forçava, assim, o design de poderes em nichos muito estreitos.

Eu preferiria muito mais a possibilidade de adotar qualquer papel dentre os 4 básicos ao dar para o jogador uma escolha importante no primeiro nível. Uma opção que fosse somada a todo poder que você usasse ou que lhe desse uma nova forma de usá-los.

Mas sim. A edição foi brilhante no que focava. Melhor abordagem dos combates dentre todas as edições já lançadas. Eis o que eu faço: eu coloco essas coisas [auras, movimentação forçada, deslocamento] como características do terreno. Assim, mesmo que os inimigos caiam, você não perde os combos ou coisas que tornem a ação mais emocionante.

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E você? O que acha que poderia ser mudado nas edições anteriores? O que acha que poderia ser trazido para esta edição?